É possível ser tolerante com a intolerância?

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É possível ser tolerante com a intolerância?

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Aqui vai um subtítulo batuta, algo que resuma o conteúdo debatido por todos

- Escrito por Oppina

A internet e suas filhas mais radiantes – as redes sociais – têm polinizado discussões intensas sobre assuntos até outrora restritos a ambientes privados e muitas vezes até mesmo varridos para debaixo do tapete de famílias, empresas e governos – e que agora, por conta dos avanços e impulsos tecnológicos, pedem passagem e ocupam o espaço público.

É preciso reconhecer que a marcha civilizatória, atrasada em questões como distribuição de renda, direitos humanos, igualdade racial ou de gênero, encontra nas tec

nologias da comunicação potencial aliado democrático. Os debates saíram da academia e chegaram aos celulares.

Como resultado reverso dessa relação, no entanto, problemas de naturezas distintas (políticos, econômicos, sociais, culturais), cujas soluções ainda estão longe de abraçá-los, passam mais recentemente a enfrentar resistências ruidosas. O cidadão comum ocidental, que mal começara a apagar da memória a infâmia do Holocausto ou a era sombria de ditaduras e da Guerra Fria, depara-se com demonstrações cotidianas de intolerância (quando não participa delas). A xenofobia deu as caras na saída do Reino Unido da Zona do Euro, na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, na ascensão de Marine Le Pen na França. Das grandes questões nacionais às diferenças de quarteirão, a maré de mudança rumo ao que se chama de sociedade mais justa encontra obstáculos, ódios e fantasmas saídos do passado.

No Brasil, as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff uniram legítimas preocupações anticorrupção a movimentos esparsos que pediam até a volta do regime militar. Atividades artísticas e centros religiosos têm sido atacados. Há cada vez mais candidatos e políticos que ajustam o tom de seus discursos, menos preocupados com valores que respeitam e protegem os direitos humanos.

Atentos à complexidade e aos desafios desse mundo em que nos metemos, em 2015, após uma deliciosa, sofrida, mas, felizmente bem-sucedida campanha de financiamento coletivo, nosso projeto Oppina saiu do papel. Criamos uma plataforma e a colocamos em operação em três temas – a publicidade infantil, o aborto e o processo de impeachment da presidenta Dilma, sempre analisados por oppineiros das mais variadas esferas.

Por diversos motivos, nosso projeto hibernou por um tempinho, importante inclusive para que alguns ajustes e acertos, sempre bem-vindos e necessários, pudessem ser incorporados. E para acordar com ainda mais disposição. Em meados deste ano de 2017, recebemos o reforço luxuoso e carinhoso de uma turma próxima que sempre torceu e apoiou o projeto: a Angela, a Elisa, o Chico, o Marcos, o Doca, o Thiago, o Bruno. Muitas trocas de mensagens depois, apresentamos a retomada do Oppina, com um tema para lá de polêmico: a (in)tolerância.

Exatamente considerando todo esse cenário e angústias aqui descritos, pareceu-nos apropriado tomar o propósito central do Oppina – a tolerância – como tema de nosso retorno.

Nossa acalorada discussão partiu do paradoxo proposto pelo filósofo austríaco Karl Popper (1902 – 1994), o “Paradoxo da Tolerância” que, segundo o autor, “surge quando uma pessoa tolerante possui visões antagônicas contra a intolerância, e, portanto, é intolerante a ela. O indivíduo tolerante então por definição seria intolerante à intolerância”.

Finalmente, saímos a campo para perguntar a seis pessoas de diferentes formações e áreas do saber: “é possível ser tolerante com a intolerância?”

Procuramos, com nosso retorno, acreditando sempre na reflexão como uma atitude política, contribuir para a construção de um ambiente plural e democrático, lugar do respeito, da tolerância, e da generosidade.

 

ENTREVISTADOS:

 

“Os grupos de intolerância confundem intolerância com imposição”

Anderson França, Dinho é escritor, empreendedor social, maker e facilitador. Desenvolve projetos culturais e de vetor econômico em territórios populares.

 

“Nós temos de nos habituar a aceitar e conviver com as diferenças.”

Eliana Calmon é jurista. Foi Corregedora-Geral da Justiça do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a primeira mulher a compor o Superior Tribunal de Justiça (STJ).

 

“Para o intolerante, a diversidade é insuportável.”

Ilana Novinsky
é antropóloga, psicoterapeuta e psicanalista. Integra o grupo de trabalho do projeto do 
Museu da Tolerância de São Paulo, da Universidade de São Paulo. Coordenou o Centro de Estudos sobre Psicanálise e Intolerância (CEPI), vinculado ao mesmo projeto.

 

“A agressividade não é o caminho para lidar com a intolerância.”

Priscila Gama é presidente do Instituto Das Pretas.Org (Espírito Santo), ativista social e blogueira.

 

“Essa questão é uma armadilha discursiva.”

Simone Padilha é mestre em Educação Pública na Área de Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso e doutora em Linguística Aplicada aos Estudos da Linguagem pela PUC – SP.

 

“O que é suave e macio vence o que é rígido.”

Wagner Canalonga é Mestre Regente da Sociedade Taoista de São Paulo, sendo também Sacerdote Taoista, psicólogo, acupunturista e especialista em I Ching. É também engenheiro de alimentos.